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A CANOA TRANSOCEÂNICA DE ORFEU: EXPERIMENTALISMOS ESTÉTICOS E COSTURAS CULTURAIS ENTRE NORTE E SUL GLOBAI

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    geopam
  • 18 dic 2025
  • 5 Min. de lectura

Maya Suemi Lemos

Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil | GEOPAM


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Orfeu, personagem que a Grécia da Antiguidade clássica foi buscar na Trácia, sua presumida terra natal, para figurar o poder de encantamento da palavra cantada, foi ao longo da história convocado nos mais distintos espaços geográficos, nos mais diversos contextos de experimentação estética. O semideus capaz de dobrar com seu canto até mesmo os desígnios do destino, as forças submundanas, afirmou-se atemporalmente como figura tutelar da poesia cantada e de sua potência mobilizadora das emoções.


Orfeu em vestimentas trácias, defendendo-se das Mênades. Detalhe de vaso da Apúlia, Pintor de Pronomo, primeiro quarto do Séc. IV a. C., Taranto, Museo Nazionale Archeologico. Fonte: World History Encyclopedia.
Orfeu em vestimentas trácias, defendendo-se das Mênades. Detalhe de vaso da Apúlia, Pintor de Pronomo, primeiro quarto do Séc. IV a. C., Taranto, Museo Nazionale Archeologico. Fonte: World History Encyclopedia.

Poetas, músicos, compositores, dramaturgos parecem ter encontrado no mito de Orfeu um motor criativo. Figura de trânsito e movimento e, ao mesmo tempo, símbolo de potência poética, ele parece de fato ser facilmente identificável à passagem ao ainda desconhecido, à emergência do novo. Como bem sintetiza Fatimazahra Hamri, o mito órfico se oferece quase naturalmente como um dispositivo metapoético, não tendo cessado, desde o Renascimento, de ser o “porta-estandarte de poéticas e estéticas em gestação”, como marca de movimentos artísticos que “propondo sensibilidades novas, refletem sobre seus meios e instrumentos” (Hamri, 2024, p. 65).


É nessa qualidade simbólica e operativa, como catalisador de novas sensibilidades estéticas que ele presidiu, por exemplo, ao surgimento, na Florença do início do século XVII, dos primeiros experimentos do drama cantado – aquilo que viria a ser conhecido mais tarde como ópera. Ninguém melhor do que Orfeu para emprestar sua persona a um gênero nascente que pretendia comover a alma (muovere l’anima) pela força da junção da fala e do canto, pretensamente repristinando a potência afetiva da música grega antiga. De fato, dentre as primeiras experiências do drama cantado, várias se serviram do mito de Orfeu como tema: a tragedia per musica “Euridice”, de Jacopo Peri, sobre libreto de Rinnuccini (1600), depois musicada novamente por Giulio Caccini (tragédia in stile rappresentativo “Euridice”, 1602), a favola in musica “Orfeo” (1607), de Claudio Monteverdi, e muitas outras que se seguiram, expandindo o círculo geográfico de desenvolvimento do gênero.


Os ecos do canto de Orfeu correram mares, terras, oceanos, mundos, abrindo caminhos e estabelecendo trânsitos estéticos ao longo dos séculos – destino histórico condizente com os temas que conformam sua caracterização mítica, sempre ligada ao movimento, ao atravessamento: o Orfeu heroico da travessia dos argonautas, que com sua lira livra dos perigos a nau capitaneada por Jasão, encobrindo o canto das sereias, afastando tempestades, rompendo obstáculos, mas também o Orfeu amante trágico, a quem é concedido penetrar e retornar do Hades, transpor os limites do mundo natural e sobrenatural, mobilizado por um ímpeto irresistível.


Ilustração de Fayga Ostrower para Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, Rio de Janeiro: Ed. Livros de Portugal, 1952. Fonte: Instituto Fayga Ostrower.
Ilustração de Fayga Ostrower para Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, Rio de Janeiro: Ed. Livros de Portugal, 1952. Fonte: Instituto Fayga Ostrower.

É no contexto do modernismo brasileiro no século XX que Orfeu parece ter pela primeira vez aportado explicitamente como tema na América Latina, na voz do poeta Jorge de Lima (1893-1953). Em seu monumental poema Invenção de Orfeu (1952), Jorge de Lima levou a qualidade metapoética do mito órfico ao paroxismo do experimentalismo. Os registros épico e lírico se conjugam nessa obra-testamento caleidoscópica e complexa, construída sobre referências clássicas, articuladas modernamente porém, na forma da montagem, da colagem. A remissão reiterada a Camões, a Virgílio, a Dante, a Milton produz efeitos de superposição, fazendo de suas múltiplas travessias épicas (os Lusíadas, a Eneida, a Divina Comédia, o Paraíso Perdido), figurações cumulativas do percurso tormentoso e errático da invenção poética, da constituição de uma linguagem.


Empreendemos com a ajuda dos acasos

as travessias nunca projetadas,

sem roteiros, sem mapas e astrolábios

e sem carta a El-Rei contando a viagem.

Bastam velas e dados de jogar

e o salitre nas vigas e o hagiológio,

e a fé ardendo em claro, nas bandeiras.

O mais: A meia quilha entre os naufrágios

que tão bastantes varram os pavores. 

(Canto I, Poema 3)


Na sobreposição dos vários registros épicos e das várias referências poéticas, a travessia e a chegada referem a invenção do poema, mas também o destino humano, coletivo e individual. 


Viagem e ilha

a mesma coisa

e um vento só

banhando livre

o poema ivre.


Guia e Alighieri

pisam a loisa

em que anda Jó.

Participante

loisa flutuante.


Nave de índia

desse maior,

rumo de um só

e de nenhum.

País comum.

(Canto VII, Poema 2)


Orfeu aparece como operador simbólico que costura mundos e experiências históricas, transfigurando-as utopicamente no e pelo fazer poético.


E depois das infensas geografias

e do vento indo e vindo nos rosais

e das pedras dormidas e das ramas

e das aves nos ninhos intencionais

e dos sumos maduros e das chuvas

e das coisas contidas nessas coisas

refletidas nas faces dos espelhos

sete vezes por sete renegados,

reinventamos o mar com seus colombos,

e columbas revoando sobre as ondas,

e as ondas envolvendo o peixe, e o peixe

(ó misterioso ser assinalado),

com linguagem dos livros ignorada;

reinventamos o mar para essa ilha

que possui “cabos-não” a ser dobrados

e terras e brasis com boa aguada

para as naves que vão para o oriente.

(Canto I, Poema 3)


Mesclam-se em permanência a tradição ocidental – clássica e cristã (por exemplo, no poema mais acima, Virgílio, o “guia” condutor ao Inferno e ao Purgatório dantesco, o próprio Dante, e Jó) –, as potências vivas do mundo tropical,


Dentro dos jenipapos o ser grávido

subiu na árvore, fruto, irmã menor,

para flechar morada de assovios,

as águas se alargaram, a anta veio,

então chegou a terra e se embebeu,

formou um vale, o vale se fendeu.

(Canto I, Poema 31) 


e a experiência histórica da violência colonial e social.


Dos porões vem um cheiro à maresia

mesclado a odor de ratos e de charque.

Verde náusea essa nau que pressagia

males a quem embarque ou desembarque.

(Canto V, Poema 5

O poeta é aqui um herói errante, navegante,


Cintilações, sóis duplos, ó grandezas,

meu batel é tão ébrio, tão sem mapa,

que meus mares não sei nem minhas bússolas.

 (Canto VII, Poema 3)


dilacerado e ao mesmo tempo constituído por experiências múltiplas, conflitantes e instáveis,


Chegados nunca chegamos

eu e a ilha movediça.

Móvel terra, céu incerto,

mundo jamais descoberto.

(Canto I, Poema 2)


condenado a instaurar sua utopia poética a partir de fragmentos recuperados, “pobres coisas”, ruínas dos desastres individuais, coletivos, históricos.


Estão aqui as pobres coisas: cestas

esfiapadas, botas carcomidas, bilhas

arrebentadas, abas corroídas,

(...)

búzios, conchas, madeiras de naufrágio,

 penas de ave e penas de caneta,

(...)

coitos findos, engulhos, dramas tristes.

(Canto V, Poema 7)


A reinvenção de Orfeu por Jorge de Lima metaforiza a própria poesia. Ao poeta ao mesmo tempo heroico e anti-heroico é autodesignada a missão de cantar, em meio à vertigem catabásica das experiências acumuladas, individuais e coletivas, fracassando e logrando sucessivamente constituir um poema que, ao fim e ao cabo, termina por religar mundos e tempos, alinhavando, ainda que de forma descontínua, uma cosmogonia brasileira.


Da Antiguidade até o presente, a figura Orfeu atravessou atravessou territórios, dando ocasião e substrato mítico a experimentalismos estéticos que não somente reconectaram transtemporalmente as margens do Mediterrâneo – como o caso do surgimento da ópera na primeira modernidade exemplifica – mas deram expressão poética também a dinâmicas transoceânicas de fricção cultural da qual o poema modernista de Jorge de Lima é um exemplo fulgurante. 


Referências

ANDRADE, Fábio de Souza. O engenheiro noturno: a lírica final de Jorge de Lima. São Paulo: Edusp, 1997.

ANDRADE, Fábio de Souza. Ovo de formiga, olho do sol. Posfácio. In: LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu. São Paulo: Cosacnaify / Jatobá, 2013, pp. 641-659.

BISCHOF, Betina. O aspecto da (des)formação de uma ilha/país em Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima. Terceira Margem, n. 21, pp. 159-175, agosto/dezembro 2009.

LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu. São Paulo: Cosacnaify / Jatobá, 2013.

HAMRI, Fatimazahra. Orfeu negro de Marcel Camus: Transplantation, variation et idéologie. Sēmēion Méditerranée, v. 9, pp. 62-79, 2024.









 
 
 

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