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REFLEXÕES SOBRE A EXPERIÊNCIA ARQUIVÍSTICA: MAPEANDO CONEXÕES E DESCONEXÕES NAS FRONTEIRAS SUDESTE DE CHARCAS NO FIM DO SÉCULO XVI

  • Foto del escritor: geopam
    geopam
  • hace 13 horas
  • 3 min de lectura

Mario Graña Taborelli

Pesquisador visitante, Instituto Max Planck de História e Teoria do Direito | GEOPAM


Brenda Yasmin Degger

Tradutora | GEOPAM



O encontro da GEOPAM que ocorreu em março de 2025, em Sevilha, uma cidade que comporta um dos repositórios mais importantes de registros dos mundos ibéricos no início da Idade Moderna: o Archivo General de Indias (AGI) (Arquivo Geral das Índias). Poderíamos literalmente passar a vida inteira folheando milhares de documentos empoeirados e amarelados abrigados nesse arquivo. E, de fato, a tarefa gargântua de fazer pesquisa nessa construção centenária em uma das cidades mais bonitas do mundo, que todo ano atrai historiadores, genealogistas e membros do público genuinamente curiosos sobre o passado, pode ser ao mesmo tempo demorado e recompensador. Há muitos momentos “eureca” para aqueles dispostos a passar tempo no AGI. Encontrar uma informação, pequena ou grande, pode, às vezes, significar uma grande descoberta. Mais importante é conectar aquele “vislumbre do passado” a eventos, pessoas, geografias e objetos.


Os “portões” para, a gente sempre espera, um mundo de descobertas! O autor em frente ao arquivo. Foto tirada em novembro de 2024.


Conectar um mapa do final do século XVI das fronteiras de Charcas, na atual Bolívia, que é bem conhecido pelos historiadores — disponível aqui —, com todo um “ambiente de documentos” da época foi um dos meus “momentos eureca” no arquivo. De repente, o mapa “fez mais sentido”. Encomendado pelo Presidente da Real Corte de Justiça da Real Audiência em Charcas, Juan López de Cepeda, que o enviou em uma carta para o Rei Felipe II em 1588, o mapa mostra um mundo fronteiriço. Podemos imaginar que quem o desenhou estava em pé olhando para baixo na direção leste. O mapa aponta para aquilo que era conhecido como o “Mar do Norte” ou Oceano Atlântico – em oposição ao “Mar do Sul” ou Oceano Pacífico. Nesse mapa Charcas estava dividido em duas seções separadas, não pelos Andes, como se esperaria, mas por outra “cordilheira” conhecida no período como a “Cordillera de los Chiriguanaes”. Para além da “barreira” estava o mundo daqueles nativos, falantes de guarani, com seus assentamentos de quinhentos “índios cada” — como o mapa indica. Em uma visão simplista, este é um mapa “eles e nós”. É mapear a alteridade. Ou será que é?


Encontrar referências para “cartas de amor políticas” há muito perdidas entre chefes chiriguana e um capitão espanhol durante a década de 1580 me permitiu reunir alguns detalhes naquele mapa e em meus documentos de arquivo recém-descobertos. Eu fui capaz de experienciar e compreender o mapa de maneira diferente. Minha atenção subitamente se deslocou para conexões ao invés de divisões cruzando o espaço: pontos que ligavam cidades espanholas e povoados chiriguana. Rios percorriam o terreno irregular, cruzando fronteiras. Árvores por toda a parte, mostrando a vasta riqueza natural do distrito. Essas pequenas marcas estavam contando uma história diferente, uma de desconexões bem como de conexões que não deveriam ser lidas somente pelo pano de fundo da alteridade. Essas marcas agora visíveis falavam sobre mobilidades, circulação, intercâmbios, conversas, visitas, acordos — e desacordos —, navegações e longas caminhadas. O mapa se tornou dinâmico, dinamizando minha própria pesquisa.


Essas novas conexões, e desconexões, revelam uma história de relações complexas que nós, como historiadores, às vezes só conseguimos encontrar nos arquivos e que estamos apenas começando a desvendar.


Sobre o autor



Mario Graña Taborelli é um historiador dos mundos ibéricos da Primeira Modernidade cuja pesquisa se centra em culturas políticas, localidade e história do direito. É pesquisador visitante no Instituto Max Planck de História e Teoria do Direito, em Frankfurt. Foi pesquisador visitante na University College London (UCL) (2024–2025), pesquisador associado à Royal Historical Society do Reino Unido e membro da Society of Latin American Studies. Obteve seu doutorado pela Universidade de Londres em 2022. Seus últimos artigos publicados no The Sixteenth Century Journal foram: “Juan Lozano Machuca and the Construction of the Global Spanish Monarchy in the Sixteenth Century” (LVI:1), fevereiro de 2025; e Itinerario, Journal of Imperial and Global Interactions“To Keep the Land Populated. Localising Empire and Constructing Locality, in the Sixteenth Century Charcas Frontier”, janeiro de 2025.


Sobre a tradutora



Brenda Yasmin Degger é doutora pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, Brasil. Mestre e graduada em Licenciatura e Bacharelado em História pela mesma instituição. Sua tese de doutorado, intitulada "Construções de espaços fantásticos: literatura, cartografia e mapeamento no século XX", teve como objeto de estudo as maneiras como narrativas literárias operam os mapas, a cartografia e as relações espaciais.





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