IRIDESCĂNCIA: ESCOVAR O MUNDO A CONTRAPENAS
- geopam
- 22 nov 2023
- 3 Min. de lectura
Actualizado: 19 dic 2023
Plumas voam contra a corrente â sĂŁo revolucionĂĄrias.
Tiago Bonato
Universidade Federal da Integração Latino-Americana, Brasil | GEOPAM

Um beija-flor fotografado pelo autor.
Nos dicionĂĄrios comuns, pouco afeitos Ă criatividade humana, uma pena Ă© definida como uma estrutura com haste flexĂvel rica em queratina da qual saem, de ambos os lados, mĂșltiplos filamentos finos e flexĂveis. Estrutura essa que cobre o corpo das aves. NĂŁo sem um pingo de desconfiança, alguĂ©m pode estar se perguntando qual o erro dessa definição. Nenhum. As penas sĂŁo mesmo essas estruturas e poderĂamos aqui apenas replicar sua definição mais conhecida â nĂŁo fosse uma outra caracterĂstica sua, fĂsica e ontolĂłgica, mensurĂĄvel e incomensurĂĄvel: a iridescĂȘncia. Um fenĂŽmeno Ăłptico que faz determinados tipos de superfĂcie refletir diferentes cores, a depender do Ăąngulo de refração da luz. As plumas iridescentes sĂŁo e nĂŁo sĂŁo. De um lado, cores intensas, brilhantes. Basta seu singelo portador, pĂĄssaro, mudar o Ăąngulo e elas apagam, as cores somem, nĂŁo sĂŁo. Plumas sĂŁo muito mais complexas do que meras estruturas com haste flexĂvel, rica em queratina. E a chave para entender essa complexidade Ă© justamente a iridescĂȘncia. Ă preciso redefinir as plumas..
Antes, porĂ©m, vamos aos fatos, esse termo performĂĄtico que se auto-sustenta na racionalidade: os pĂĄssaros tĂȘm penas. Muitas delas. Entre os pĂĄssaros mais brilhantes (dependendo do Ăąngulo, jĂĄ sabemos) e mais incrĂveis, estĂŁo os beija-flores. Cada ave dessa, que tem em mĂ©dia o peso de uma moeda desvalorizada, carrega consigo mais de mil plumas. Nenhuma ave resume tĂŁo bem o fenĂŽmeno da iridescĂȘncia. NĂŁo Ă toa, os nomes indĂgenas dos beija-flores significam ave cintilante, resplandecente, raio de sol. Mas os fatos podem se tornar mais desafiadores e quase abstratos, mesmo falando de nĂșmeros: o coração dos beija-flores pode bater atĂ© mil vezes em um minuto; suas asas, oitenta vezes por segundo; sua dieta, dez vezes o peso do corpo em comida todos os dias; beija-flores visitam quase duas mil flores por dia e tĂȘm um mapa mental para voltar a todas elas; na mata atlĂąntica brasileira vive uma espĂ©cie de beija-flor que canta em ultrassom â som de 14 mil hertz; outra espĂ©cie voa proporcionalmente com o dobro da velocidade de um aviĂŁo; outra ainda faz uma migração de 2 mil km, desde o Alasca, incluindo uma jornada de mais de 800 km sem paradas por cima do mar, no golfo do MĂ©xico. Tudo com dois ou trĂȘs gramas. Como eles fazem isso? Cobertos de plumas.
Basta de nĂșmeros. A racionalidade das medidas fĂsicas esconde, mas parece revelar o essencial na beleza, na leveza, na singeleza das plumas â a iridescĂȘncia. Basta mudar o Ăąngulo de percepção e temos uma realidade completamente outra perante nossos sentidos, brilhante, intensa. Os mesmos fatos, com a luz refletida sob outro Ăąngulo. Sensibilidade para incomensurar a realidade. Ă preciso se deixar levar pela iridescĂȘncia para entender as plumas. As plumas precisam de outra definição: pluma Ă© um instrumento de força, de resiliĂȘncia. Ă aquilo que os nĂșmeros nĂŁo conseguem explicar, a singeleza do que Ă© real, o contrĂĄrio sensĂvel do que a racionalidade mostra. Ă o olhar para o que nĂŁo se vĂȘ, mesmo estando a nossa volta. Ă um convite a um novo olhar, ver o mundo com olhos iridescentes, escovar a realidade a contrapenas. Pluma Ă© um apelo a resistĂȘncia, ao real, antivirtual, antifinanceiro, antifetiche. Plumas voam contra a corrente. SĂŁo revolucionĂĄrias.
Sobre 0 autor

Sou montanhista, passarinheiro (nome carinhoso dos observadores de aves no Brasil), entusiasta da natureza e encantado por literatura. Meu destino de infĂąncia parecia ser no caminhĂŁo â caminhoneiro como meu pai, meus avĂłs e muitos tios e primos. A vida seguiu por outras veredas e acabei na universidade. Fiz minha formação (graduação, mestrado e doutorado) em HistĂłria na Universidade Federal do ParanĂĄ. Atualmente sou professor de HistĂłria da AmĂ©rica na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu,
cidade trifronteiriça entre Brasil, Paraguay e
Argentina.

Esta obra estĂĄ bajo una Licencia Creative Commons AtribuciĂłn-NoComercial-CompartirIgual 4.0 Internacional.



