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LONGITUDE: A LINHA FUGIDIA

Amarrar o Sol para medir a Terra.


Artur Barcelos

Universidade Federal do Rio Grande, Brasil | GEOPAM


O Intihuatana, o policial sargento Carrasco e o menino Pablo Recharte, que conduziu o arqueólogo Hiram Bingham a Machu Picchu. Foto tomada por Bingham em 24 de julho de 1911, o dia da “descoberta” que o deixou famoso. Fonte: Wikimedia Commons.



No coração de Machu Picchu, nas montanhas do Peru, há um bloco de pedra esculpida e polida. É o Intihuatana, que significa “lugar para amarrar o Sol”. O astro era preso por uma linha imaginária, que permitia ver seu movimento no céu. A famosa “cidade perdida” dos Incas deve ter sido erguida nas primeiras décadas dos anos de 1400, portanto pouco mais de um século antes da chegada dos espanhóis. Mas aqueles eram outros tempos. O mundo era menor. Para os europeus a grande aventura havia começado com barcos singrando o Grande Mar Oceano para além das Colunas de Hércules. A cada milha navegada maior ia ficando o mundo deles. Novas terras emersas saltavam à vista, primeiro como ilhas, depois como uma gigantesca massa continental - o “Novo Mundo”. Era preciso encaixá-lo na narrativa bíblica. Afinal, os filhos de Noé, Sem, Jafé e Cham, haviam povoado três partes do mundo, Ásia, Europa e África, respectivamente. Essa quarta parte não estava na Bíblia. Não estava nos mapas. O mundo não apenas crescia, precisava ser explicado, mapeado, medido. Todas aquelas praias, matas, montanhas, desertos, ilhas, rios, lagos e pessoas tinham que ser colocados dentro de um mundo mensurável, finito. O mar tinha que ser marcado com estradas imaginárias. E para além daquele enorme acidente no caminho estava o outro mar, o Mar do Sul, o oceano Pacífico, também ele com suas ilhas e arquipélagos espalhados na imensidão como estrelas no firmamento. Aquelas cascas de noz com velas que os europeus usavam tinham que chegar a cada lugar, dizer onde estavam para que outros achassem o caminho até lá. E de lá se soubesse o caminho de volta.


Em terra firme, no novo e no velho mundo, astrônomos perscrutavam os céus em busca do movimento dos corpos celestes. Se o mundo modificava sua forma, o céu também. A Terra fora deslocada do centro do universo e acomodada em sua órbita ao redor do Sol. Os velhos conhecidos, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno começavam a ganhar luas. Cometas teimavam em desafiar os terráqueos que não sabiam de onde eles vinham e o que eram. Pois, assim como na Terra, o céu tinha que ser desenhado, para que os planetas e estrelas formassem ângulos com a linha do horizonte. Era assim que desde Eratóstenes se calculavam as latitudes, linhas imaginárias que formam círculos paralelos ao norte e ao sul do equador. Elas permitiam manter o rumo sem variar a altura. Mas estas linhas eram insuficientes para dizer onde as pessoas estavam, em alto mar ou em terra. Se um ponto é o cruzamento de duas linhas, faltava definir com precisão a outra linha, a longitude. Os astrônomos achavam que, assim como faziam com as latitudes, poderiam estimar as longitudes através de cálculos geométricos baseados na posição dos corpos celestes. Enquanto isso não acontecia as tragédias se acumulavam. Barcos se despedaçavam contra os rochedos. As provisões acabavam a bordo em viagens que não chegavam a terra alguma. Em terra o problema não era menor. Quais os limites entre reinos, impérios, províncias? Talvez a resposta não estivesse na vastidão do céu, mas sim no mundo micro das engrenagens de um relógio. O cálculo das horas passou a ser mais importante que o cálculo dos ângulos. Teve início então uma das grandes corridas da história. Quem iria oferecer a solução? Astrônomos ou mecânicos? A velha ciência herdada dos antigos ou o saber destes práticos em madeira e metais que montavam engenhocas com pêndulos e ponteiros? A linha da longitude escapava a ambos. Na incerteza, era riscada ao sabor dos acontecimentos mais do que de sua precisão.


Foi preciso que um marceneiro e relojoeiro do interior da Inglaterra se dedicasse durante décadas até chegar a um mecanismo que permitisse estabelecer a hora com seus minutos e segundos. Com base nos 360 graus que fazem a volta na Terra, sabia-se que a cada 15 graus correspondia uma das 24 horas do dia. Coube a John Harrison a honra de conseguir este feito. Com dois relógios a bordo, um marcando as horas desde o ponto de partida e outro com a hora local, era possível verificar que a cada hora de divergência entre ambos 15 graus haviam sido percorridos. Claro que até chegar a isso Harrison teve que descobrir um jeito de fazer um relógio funcionar apesar do movimento do navio e das condições climáticas enfrentadas ao longo do caminho. Quando chegou a isto as linhas começaram a se cruzar com maior precisão e os navegantes puderam saber onde estavam. Também os monarcas puderam dizer até onde iam seus domínios, na Europa e além. Hoje, em tempos de coordenadas UTM e aparelhos de GPS, Google Maps e Waze, até a superfície de Marte está cortada por linhas. E se os Incas pensaram em amarrar o Sol com uma linha, poderíamos dizer a eles que há duas linhas se cruzando sobre sua velha cidade. E o ponto exato em que duas delas se cruzam é a 13º 9′ 47″ de latitude sul e 72º 32′ 44″ de longitude oeste...




Sobre o autor


Fui tragado para o mundo da História e da Arqueologia através dos estudos de Graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e de Pós-Graduação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Lá se vão 30 anos desde as primeiras aulas e a primeira escavação em um sítio das antigas Missões Jesuíticas. Venho percorrendo um roteiro no qual há lugar para mapas, filmes, fotografia, literatura e contação de histórias infantis. Assim, não há uma linha que divida as aulas, projetos, textos e as atividades lúdicas que deram origem a Pandemic Art e ao Canal Mundo de Papel. Para conversar, basta me procurar na Universidade Federal do Rio Grande – FURG ou me chamar em ahbarcelos@gmail.com.










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